Instituto Oca do Sol comemora 20 anos da Carta da Terra

DIÁLOGOS DA CARTA DA TERRA


Textos transcritos e organizados por Ruth Kelson

PREFÁCIO 

Em, 22/04/2020, foram comemorados os 50 anos do Dia da Terra. Na ocasião o secretariado geral da Carta da Terra, com sede junto da Universidade Internacional para a Paz, em Costa Rica, organizou  3 diálogos mediados pela presidente Miriam Villela. O dialogo contou com renomados cientistas e pensadores que atuaram na construção da Carta da Terra. Neste ano comemora-se também os 20 anos de aprovação e lançamento da Carta da Terra. O slogan escolhido para celebrar este momento foi: 

"Transformar a consciência em ação para uma Terra mais próspera".

Apresentamos a seguir uma síntese das questões abordadas por cada um dos participantes durante os três diálogos virtuais, todos mediados por Miriam Villela.

- Diálogo I entre Fritjof Capra e Sam Crowell em 22/04/2020 "During and beyond the pandemic"-

- Diálogo II entre Leonardo Boff e Mateo Castillo - "Hacia un Nuevo Paradigma: Colaboración en tiempos de Pandemias y más allá" 

- Diálogo III entre Ricardo Young, Marina Silva e Rose Marie Inojosa: "Rumo a um Novo Sentido de Interdependência Global e Responsabilidade Universal em tempos de crise" -

Os diálogos foram realizados de forma virtual em três encontros e aqui estão organizados por escrito. São dois os objetivos: o primeiro, que o pensamento de cada um dos participantes seja exposto de forma sintética, porém com a máxima fidelidade às suas ideias e palavras. O segundo, despertar o interesse para a consulta ao debate original que se encontra disponível no site   www.cartadelatierra.org

- Diálogo virtual entre Fritjof Capra e Sam Crowell em 22/04/2020 - "During and beyond the pandemic"- (intermediado por Miriam Vilela). Earth day online dialogue.

Miriam Vilela

Havíamos feito um planejamento para este ano e então chegou o Vírus Corona. Tenho esperança, no entanto, que a pandemia, além de nos fazer ver com novos olhos nossa vulnerabilidade e a do nosso sistema, evidencie também a capacidade humana de, a partir de uma visão de comunidade planetária, se unir, colaborar e dar um passo para um mundo melhor.

Sam Crowell

Uma visão de mundo que não é mais adequada para a sua época, para a ciência, para os valores e para a realidade, não pode abrir-se para as possibilidades da complexidade e da interconexão e fica presa em blocos isolados de separatividade.

E sabemos que o mundo não é separado, é unificado, é um todo, é inter-relacionado e interconectado - e somos parte disso. Por isso, o que fazemos e pensamos tem validade, não é isolado, faz diferença. Da perspectiva de um sistema, tudo o que fazemos e até mesmo o que pensamos, e tudo o que flui através de nós, afeta o mundo em torno. A mudança na forma como percebemos o mundo mudará a forma como agimos com o planeta e com a humanidade, para superar uma visão de mundo insuficiente e ultrapassada.

Se voltarmos para uma visão mais encantada de uns com os outros e conosco mesmos, acredito que começaremos a aplicá-la aos aspectos práticos da vida.

Baseamo-nos num senso de responsabilidade universal quando buscamos ter um planeta sadio com pessoas sadias. Uma exigência inescapável de nos responsabilizarmos por quem somos e pelo que fazemos, tanto como indivíduos como também por nossas políticas.

As instituições de saúde, educacionais e outras, também necessitam responsabilizar-se para alcançar um planeta sustentável e saudável e que se contraponha às mudanças climáticas.

Precisamos usar este tempo da epidemia para parar, olhar, ouvir e sentir o mundo que criamos e refletir quanto aos aspectos positivos que poderão acontecer se tivermos a vontade para isso.

Uma visão de mundo nos diz como lidamos com as coisas, como olhamos para o mundo e para nós mesmos. Como lidamos com este planeta que nos nutre?

Precisamos alcançar uma visão ampliada: superar a ilusão de separatividade, vermo-nos como parte de uma teia interconectada de vida e honrar o planeta que é o nosso lar. Somos uma família humana, uma comunidade terrestre que compartilha um destino comum.

Estamos acoplados com o meio ambiente. Devido a que a biosfera é interconectada, ela é sempre dinâmica, sempre se move e muda, assim como nós. Estamos sempre em movimento, em transição, em mudança, em fluxo.

A velha visão de mundo foi construída sobre a metáfora da máquina, do controle. E nós inserimos esta metáfora na Educação. Porém as coisas são não-sequenciais, não-lineares e se movem de forma imprevisível, ainda que probabilística. Em outras palavras: o caos é o pré-requisito para a criatividade. A nova visão holística nos vê e à Terra como um organismo que muda dinamicamente. Usa conceitos de padrões cíclicos, complexidade, diversidade, não linearidade e emergência.

Vejo a Educação como um padrão cultural. Penso que parte dela deva estar focada em corações e mentes, tendo a sustentabilidade como propósito central e seu conteúdo sendo a ética, os valores, a mentalidade e as perspectivas contidos na Carta da Terra, que é um dos melhores guias para sustentar esta visão. Com esta parte maior em vista, todos os demais conteúdos se conectam. E o currículo seria então uma conversa focada, que ao longo do tempo gira em torno a estas ideias, práticas e valores.

A Educação pode, porém prejudicar o meio ambiente se mantivermos isolados o sujeito e a experiência, focados somente na informação e no seu processamento. Na Educação importa o como ensinamos, e não somente o quê.

A beleza da Carta da Terra foi o incrível processo tão aberto e colaborativo que emergiu junto com estas visões sobre os valores e princípios essenciais realmente necessários ao século XXI. Como poderemos colocá-la no mundo? Sistemas tais como os de saúde e educacionais estão sendo desafiados. Como lidar com estas questões para alcançar um planeta sustentável?

Quando mudamos a maneira de perceber o mundo e as premissas fundamentais sobre o que é a Educação, de como ela se conecta com o sentido maior de quem somos e o mundo em que vivemos, então a mudança acontece rapidamente.

Não há uma metodologia particular e prática para isto. Devemos perguntar: "o que me leva para adiante para agir no mundo?". "O que me retém?". Quase sempre nossas limitações provem dos nossos pensamentos e medos, ou de não termos olhado atentamente para este panorama mais amplo, aonde poderemos abrir novas possibilidades.

Fritjof Capra

A pandemia do Corona vírus resultou na destruição massiva do nosso cotidiano com múltiplos impactos que provavelmente conduzirão à profundas transformações sociais, econômicas e políticas.

Numa análise sistêmica, vê-se como todas as dimensões e aspectos desta crise estão inter-relacionados. A meu ver, a crise do Corona vírus é uma resposta biológica de Gaia, nosso planeta vivo, à emergência ecológica e social. Excedemos a capacidade da Terra. A obsessão irracional dos nossos líderes políticos e corporativos por um crescimento econômico perpétuo levou a esta crise multifacetada em que a nossa própria sobrevivência está ameaçada. Cientistas e ativistas ambientais por décadas têm advertido sobre as terríveis consequências de um sistema político e econômico insustentável.

Com a atenção fixada no curto prazo e intoxicados com os lucros financeiros e o poder político, estas elites teimosamente resistiram aos avisos e desconsideraram as consequências de longo prazo da iminente catástrofe à qual estão agora forçadas a prestar atenção. A desigualdade econômica e social foi colocada a claro pelo vírus corona. Num país depois do outro a crise na saúde resultou numa crise econômica mundial com trágicas conseqüências.

A derrubada de grandes áreas de florestas tropicais, por corporações multinacionais, e o impacto negativo das atividades humanas nos ecossistemas naturais, em geral, fragmentaram e fraturaram a rede da vida. A resultante destas ações destrutivas foi que o vírus, que vivia em simbiose com certas espécies de animais silvestres, saltaram delas para os humanos.

No entanto, da perspectiva da mãe Terra também houve consequências positivas. Quando o tráfico de carros e as atividades industriais decresceram dramaticamente, a poluição em muitas cidades de todo o mundo subitamente desapareceu e espécies animais reapareceram.

Isto não significa que queremos continuar nesta situação, porém o Covid 19 nos mostrou o que é possível ocorrer quando as pessoas se dão conta de que suas vidas estão em jogo. O mundo é capaz de responder com urgência e coerência, desde que a vontade política tenha sido despertada.

Gaia nos dá valiosas lições para salvaguardar a vida. Haveremos de escutá-las? Trocaremos o crescimento extrativo insustentável por um crescimento qualitativo? Substituiremos o combustível fóssil por fontes renováveis de energia? Mudaremos o sistema intensivo de agricultura industrializada por fazendas comunitárias orgânicas?

Temos o conhecimento e a tecnologia necessários para dar início a estas iniciativas. Teremos a vontade política para isto? Seremos guiados pelos princípios éticos que estão expostos tão primorosamente na Carta da Terra?

Vemos que políticas sociais impensáveis até dois meses atrás, tais como a renda social básica, estão sendo agora discutidas seriamente em muitos países. Se a elas adicionamos políticas que respeitem e cooperem com a natureza, poderemos ter sucesso em restaurar e estabilizar este sistema natural.

Ao olhar retrospectivamente para 2020, os historiadores do futuro poderão concluir que apesar das trágicas consequências da Covid 19, no longo prazo ela pode ter salvado a humanidade e grande parte da comunidade da vida da extinção. Isto seria de fato causa de celebração alegre nos futuros Dias da Terra.

Todos os problemas globais estão interrelacionados. A epidemia resultou do grave desequilíbrio ecológico e seus impactos são devidos aos correspondentes desequilíbrios sociais e econômicos.

Problemas sistêmicos requerem soluções sistêmicas. Chamo isto de visão sistêmica da vida. Um dos insights fundamentais que decorre desta visão é de que a natureza sustenta a vida criando e nutrindo comunidades de plantas, animais e micro-organismos. Um dos papéis mais importantes da educação é aprender estes princípios de organização ou de ecologia que a natureza desenvolveu. Chamo a isto tornar-se ecologicamente alfabetizado.

A Educação hoje não é ministrada somente nas instituições tradicionais, mas também em organizações alternativas. Há uma coalizão mundial de ONGs que atuam ativamente na sociedade civil global. Temos nossos centros de aprendizagem, nossos institutos de pesquisa, inúmeros cursos e seminários on-line. Nos 50 anos desde o Dia da Terra houve progressos e mudanças em muitas regiões e segmentos da sociedade.

Olhando as pesquisas de opinião nos EUA, verificamos que uma imensa maioria apóia agir contra as mudanças climáticas, pela diminuição da desigualdade e pelo controle de armas. Só poderemos superar a crise atual com esforços colaborativos, o que significa um comportamento ético direcionado para o bem comum, cujos princípios estão todos formulados na Carta da Terra. Temos o conhecimento e as tecnologias para realizarmos estas mudanças. O que necessitamos é vontade política e liderança em todos os níveis da sociedade.

A epidemia do Covid 19 nos mostrou dramaticamente como a Terra pode se regenerar em apenas poucas semanas. Isso aconteceu devido a redução do uso de combustíveis, motivado pelo medo da doença e da morte, mas que pode continuar com mudanças motivadas pelo nosso amor pela Terra e pela comunidade da vida.

- Diálogo II entre Leonardo Boff e Mateo Castillo - "Hacia un Nuevo Paradigma: Colaboración en tiempos de Pandemias y más allá" 

- Diálogo entre Leonardo Boff e Mateo Castillo em 22/04/2020 - "Hacia un Nuevo Paradigma: Colaboración en tiempos de Pandemias y más allá" - 50 Years Earth Day (intermediado por Miriam Vilela). Earth day online dialogue.

Miriam Vilela

Comemoramos hoje, 22/04/2020, os 50 anos do Dia da Terra. Em 1972 foram lançados o livro "The Limits of Growth"e também o Relatório de Roma. No mesmo ano aconteceu a I Conferência da ONU sobre Meio Ambiente, também conhecida como Conferência de Estocolmo. Foram o início de movimentos que têm elevado a nossa consciência sobre as questões ambientais. Celebramos também os 20 anos do lançamento da Carta da Terra.

O slogan escolhido para este momento foi: "Transformar a consciência em ação para uma Terra mais próspera".

Muitos julgam que a Carta da Terra trata somente de forma abstrata da ética, dos valores e da visão de mundo que devem orientar a ação. Nosso esforço este ano é, a partir dela, articular esta ética planetária de cuidado e responsabilidade, com a prática, com a ação concreta.

Entramos numa era em que precisamos de uma mudança de mentalidade para pensar um sistema global que desencadeie uma nova consciência do bem comum. Pensar sobre nossa essência, sobre nosso papel aqui, nossa responsabilidade e conexão com o todo. Um novo paradigma da comunidade planetária.

Mateo Castillo